Não mates a formiga só porque ela é pequena; ela pode estar indo de encontro a tu, um devorador maior do que ela, só para defender seus semelhantes.
Não mates a formiga pela sua insignificância espacial; o espaço ocupado por ela serve-te para fazeres pensar no seu próprio tamanho em relação ao imenso universo.
Não mates a formiga que é tão insignificante ao imenso universo; tu também és só um ponto que completa as cores da aquarela chamada mundo.
Não mates a formiga enquanto ela solitariamente traça seu caminho; assim também ages e reages às jornadas que enfrentas no dia a dia.
Não mates a formiga que também anda em bando, em fila com as demais de sua espécie; como todos os seres desse solo, também és tu parte de alguma espécie, de algum contingente, de algum grupo estatístico.
Não mates a formiga por desprezar seu valor de mercado; a tua frente, ela nada pode valer, porém, nunca se sabe quem dará as cartas no mundo cambial e que, se nem tudo que reluz é ouro, uma formiga também pode não ser só uma formiga. Assim és tu, para uns formiga, para outros, um ser vivente, para outros, ainda, produto.
Não mates a formiga pela sua cor escura ou sua fisionomia peculiar; ela representa sua cadeia. Como tu, ela já nasceu um ser. Ela não sabe sorrir sem querer, chorar falsamente, falar palavras e não sentir ou sentir sem que haja palavras. É só uma formiga. E tu, o que és e como és?
Não mates a formiga que se lambuza no bolo, no doce, no mel, no açúcar; ela só está se alimentando. Observa os alimentos que tens à disposição e o que comes. As formigas rejeitam o amargo...Muitas vezes, tu o repartes.
Não mates a formiga pelos seus exércitos tontos, desconexos, viscerais, doidos, perigosos; está tudo dentro da ordem e da lei. O formigueiro complexo em que tu andas e vive e convive, quase sempre, causa inveja nas pobres coitadas.
Não mates a formiga mesmo quando ela mostrar-se perigosa a ponto de causar-te a morte; igualar-se-á a ela em pavor e poder de destruição, tão acostumado que estás em ser humano e não admitir o bicho.
Não mates a formiga com as mãos, com os pés ou com nada que ostentares; seria uma luta desleal, mas seria só mais uma daquelas deslealdades mortais entre a palavra e a ânsia, o gesto e a paciência. Porém, teu corpo não és túmulo, és videira.
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